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O chão do banheiro

Quarta-feira, onze horas da manhã, Liza, cansada das agressões verbais recebidas, se tranca na cabine do banheiro, senta no chão, apoia as mãos no joelho e chora. Chora por não entender porque estão fazendo isso com ela, que fez tudo o que podia para agradar e ainda é agredida, chora por não saber mais o que fazer para não ser colocada de lado e por ainda ser quarta-feira e ela precisar aturar mais dois dias naquele inferno. Por motivos maiores, desistir não era uma opção.

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Essa cena se passou em um colégio ou em uma empresa? Liza é uma adolescente de 15 anos ou uma profissional de 30? Seus agressores são colegas de classe ou de empresa? Tanto faz, ambas as situações são devastadoras para qualquer idade e, o que é chamado nas escolas de bullying, nas empresas é assédio moral.

“Bullying: anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia.”

(http://www.significados.com.br/bullying/)

“Assédio Moral: forma de violência no trabalho que consiste na exposição prolongada e repetitiva dos trabalhadores a situações vexatórias, constrangedoras e humilhantes, praticadas por uma ou mais pessoas.”

(http://www.assediomoral.ufsc.br/)

Nos dois casos as vítimas são reprimidas e sofrem em silêncio, há o medo de reclamarem e não serem entendidas, ou que os agressores saibam da reclamação e piorem as agressões. Outro medo é de serem ainda mais excluídas do grupo, no caso do colégio, ou demitidas. Elas aprendem que nada de mais está acontecendo, aceitam a situação e, aos poucos, começam a acreditar que é verdade o que lhe é dito: são gordas, feias, burras, incompetentes, não fazem nada direito, só trazem mais problemas para a equipe, etc.

Ao internalizarem essas “verdades” e no desejo de reverter o quadro, os processos autodestrutivos começam e variam para cada um; as vítimas acreditam que se agradarem seus agressores conseguirão ser aceitas e bem tratadas. Entre os adolescentes, principalmente as meninas, é comum regimes loucos que, geralmente, acabam em distúrbios alimentares. Já nas empresas, o profissional fica horas além do expediente, não sai mais para almoçar, trabalha aos finais de semana e acaba se afastando de seu círculo social e família, por consequência desenvolve doenças como ansiedade e depressão.

Na maioria das vezes as tentativas de agradar o outro são em vão e as agressões não param, mesmo que a menina chamada de gorda fique extremamente magra e o profissional chamado de ineficaz atinja todas as metas do ano. Raramente o agressor escolhe suas vítimas por motivos específicos e particulares, geralmente ele está sob algum tipo de pressão ou tem suas próprias inseguranças e, para não demonstra-las ou conseguir agradar seus superiores/colegas, começa a atacar quem aparentar ser o mais fraco, tanto fisicamente quanto emocionalmente ou hierarquicamente.

Identificar uma situação de bullying ou assédio moral é um tanto complicado, já que as vítimas costumam negar o que está acontecendo e não é comum denunciarem as ocorrências. O gestor na empresa e a equipe pedagógica do colégio precisam estar atentos às mudanças de comportamentos, além de contarem com profissionais especializados para lidar com os casos mais graves.

Liza se levanta do chão, assoa o nariz, sai da cabine e lava o rosto para voltar para seu inferno. Ainda é quarta-feira e a semana tem mais dois dias. Não que isso melhore muito sua perspectiva, afinal os finais de semana não tem sido bons; desde que as agressões começaram, ela tem dificuldades para dormir e para se relacionar com sua família e com os amigos de fora dali.

Cristina Chaim
Publicitária formada pela USP, é voluntária no CISV e atua como gestora de comunidades sociais corporativas online.

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