BLOG

Amor corporativo

Um dia meu amigo Luiz Eduardo me fez uma pergunta: amor, justiça e integridade deveriam ser valores corporativos?

Bela pergunta… amor, justiça e integridade deveriam integrar a cultura das corporações? Penso que sim. E que não… explico: se todas as pessoas tivessem um comportamento verdadeiramente ético, tratassem a seus semelhantes com amor, com justiça e fossem íntegros em seu modo de agir, não haveria necessidade de incluir esses pontos nas intrincadas culturas corporativas do moderno (?) século XXI. Fosse assim nem mesmo esse artigo teria necessidade de existir. Isso não seria assunto. Mas…

Ao contratar um funcionário você gostaria que ele tivesse amor pelo trabalho, fosse justo com seus colegas e íntegro em seu comportamento em relação à empresa e aos negócios? Ao ser contratado você gostaria que seu chefe e a empresa como um todo tivessem amor pelos seus funcionários, tratassem com justiça a todos e fosse uma companhia íntegra em suas relações comerciais? Se a resposta para essas duas perguntas for sim, então temos um ponto de partida.

Mas por que isso não é exatamente verdadeiro na prática?

Vejamos o que é que se pode fazer com o que temos.

Vivemos em boa parte do mundo dito civilizado, essencialmente nas grandes cidades e nas grandes corporações (não necessariamente andam juntas) um surto de insatisfação. Acredito que boa parte dessa insatisfação se deve ao fato de que pessoas e empresas não se comportam dessa maneira. Evidente que cada um de nós tem sua parcela de responsabilidade. Afinal de contas, cada um deveria se comportar assim para que houvesse ao menos a possibilidade de mudança em nosso ecossistema imediato. Mas… todos e cada um tem o receio de ser visto como um idiota. Idiota na acepção que Dostoiévski dá ao termo.

É importante ser “esperto”. O executivo “malandro” é sempre bem visto ao perseguir sempre levar a melhor vantagem para si e para sua empresa. No embalo da cultura de levar vantagem lentamente transformamos a sociedade em algo viscoso e desagradável. Passamos a viver em estado de alerta. Não relaxamos. Afinal, como é possível viver tranquilo se a qualquer momento alguém pode surgir e tirar vantagem de nós? Eu sou ótimo, mas o meu vizinho… será?

Então pergunto: onde está o vetor que direciona a solução dessas questões?

Em nós mesmos.

Empresas são seres inanimados. Não são boas ou ruins. Essas são características das pessoas que ali trabalham e que emprestam suas próprias qualidades ao local de trabalho. A liderança, é óbvio, tem papel muito importante nisso. É o líder quem imprime ritmo e direciona a equipe. De líder em líder chegamos ao comando geral da empresa. Se esses não são valores caros a quem comanda, não serão valores apreciados pela empresa. Simples assim. Empresas com ambientes de trabalho ruins congregam, inevitavelmente, pessoas ruins e lideranças mal intencionadas. Leia o que o Luiz Eduardo tem a dizer a respeito e tudo vai ficar mais claro para você.

A busca pelo sucesso individual nos transformou em criaturas estranhas. Pessoas estranhas criaram empresas à sua imagem e semelhança. Passamos a achar normal uma dicotomia que não existe: na empresa o sujeito é uma fera, mas na vida privada um amor de pessoa. Lamento desapontá-lo, mas isso não existe. As empresas passaram a desejar funcionários cada vez mais bem qualificados; qualquer um tem um MBA, mesmo sem saber para quê isso serve. Entretanto, esqueceram-se de olhar o caráter das pessoas e isso não vem com o título acadêmico, isso não se compra; o sujeito tem ou não tem.

“A vida privada dos meus funcionários não me interessa.” Quem já ouviu isso? Pois é… deveria interessar. Fustigar pessoas para que atinjam metas impossíveis virou lugar comum e o pior de tudo, pessoas como você que está lendo nesse momento passaram a concordar com isso, a acreditar que “é assim mesmo”. Não, não é.

Na antiga Roma executivo era apenas um escravo qualificado, alfabetizado, que administrava os haveres de seu senhor. Em troca de sua lealdade e fidelidade recebia algumas regalias, tinha algumas prerrogativas que a outros escravos eram negadas. Nos tornamos escravos de investidores que muitas vezes não têm noção do que acontece no “chão da fábrica”. Nos tornamos cúmplices da busca estúpida e impossível pelo retorno sobre o investimento, pelo crescimento contínuo a níveis acima do mercado em muitos casos. Tudo para termos o privilégio de… usar o helicóptero da empresa, de poder viajar em classe executiva (porque o nível hierárquico permite), para ter uma secretária, carro da empresa à disposição e, claro, um bônus generoso no final do ano. Não raro conseguimos tudo isso à custa de tornar miserável a vida de outras pessoas.

Os motivos para esse comportamento são os de sempre: cuidar melhor da família, dar um futuro para meus filhos, realização pessoal. Passamos a viver num mundo de fogos fátuos, onde nem a satisfação e nem as conquistas são reais. Realizamos e conquistamos para outros, esperando que nos afaguem e nos digam como fomos bonzinhos e a isso se deu o nome de reconhecimento profissional. Não há vergonha alguma em buscar essas coisas, mas é importante que você esteja consciente do que está buscando e dos motivos que o impelem a essa busca. Do contrário, você será infeliz.

Quando criança você queria ser um executivo implacável, que vencesse a qualquer custo, hábil na destruição da concorrência e sempre pronto a entregar um resultado 20% acima do mercado? Ou você queria ser, digamos, bombeiro, soldado, construir grandes pontes, enfermeira, piloto de fórmula 1…

Talvez você tenha perdido, como milhões de outros, o contato consigo mesmo, com seus sonhos, com sua essência. Seus filhos não querem ir para a Disney todo ano; foi você que os acostumou assim porque nunca está perto o suficiente. O que toda criança valoriza é o tempo com qualidade que seus pais lhe dedicam e não o quanto gastam com eles. Nenhum filho valoriza suas longas horas extras e não dá a mínima para o que seu chefe pensa de você.

Agindo assim, com Amor por si mesmo e pelos seus, sendo justo para com seus sentimentos e íntegro nas relações que verdadeiramente importam você poderá se (re)conectar com sua essência. Terá a capacidade de construir um ambiente de trabalho digno e respeitoso a todas as pessoas. Mais importante, terá a capacidade de decidir se você quer mesmo continuar a ser o Lobo de Wall Street ou se prefere ser o Steve Jobs de sua própria vida.

Não troque o sorriso de sua família pela satisfação do seu chefe. Sua família sabe quem você é. Seu chefe, não.

Antonio Lombardi
Sócio da Lombardi & Co. Consultoria em negócios e sustentabilidade

 

Gostou do post? Quer continuar acompanhando nosso blog? Siga nossa fan page no Facebook.

4winners Análises e Soluções Empresariais